As manifestações no Brasil e a disputa pelo seu significado
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Écrit par Teresa Cristina Schneider Marques   
Jeudi, 20 Juin 2013 14:00

As manifestações no Brasil e a disputa pelo seu significado


Teresa Cristina Schneider Marques*

 

O que observamos hoje, nos dias seguintes às maiores manifestações que ocorreram simultaneamente em todo país, é uma disputa pelos significados das manifestações. A insatisfação teve como estopim o aumento das passagens do transporte público e alcançou diversos setores da sociedade que apoiaram a causa. As primeiras grandes manifestações deste ano ocorreram em Porto Alegres - RS, e, após seguidos protestos que cada vez ganhavam maior adesão, a prefeitura se viu forçada por uma liminar da justiça a revogar o aumento nas tarifas de ônibus. Um mês depois, foi a vez São Paulo. A violência empregada pela polícia na manifestação, que contou com mais de 10 mil participantes na quinta-feira (13 de junho), sensibilizou ainda mais a população, que já considerava legítima a luta pela revogação do aumento da tarifa.

Diante da gigantesca adesão da população, os protestos se espalharam por todo país e grande parte do público passou a reivindicar que o movimento abordasse outros temas. O consenso em torno à situação caótica do transporte público canalizou a insatisfação popular mais ampla, dirigida ao nível de qualidade dos serviços públicos em geral, tais como a saúde e a educação básica. Esta situação convive com os grandes investimentos que estão sendo direcionados aos estádios para a Copa do Mundo de 2014. Por outro lado, as pesquisas realizadas pouco antes do início dos protestos apontavam uma significativa aprovação do governo Dilma, principalmente em virtude do mérito de ter mantido as medidas implantadas por Lula visando combater as desigualdades sociais. Diante disso, diversos sociólogos destacaram que as manifestações não visam à queda do governo. Porém, enquanto o governo demorou a apresentar respostas aos manifestantes, outros setores tentaram tomar as manifestações para si. Assim, setores da sociedade que tradicionalmente se opõem aos movimentos sociais passaram a apoiar essa mobilização, entendendo-a enquanto uma oposição à corrupção, ao governo do PT e às suas políticas sociais. Dessa maneira, muito embora os líderes do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo tenham um foco claro (a revogação do aumento de 0,20 centavos no valor da passagem), esse acabou sendo esquecido por uma parte considerável das pessoas que apoiam as manifestações. Todo mundo está na rua, mas parece que cada um por um motivo diferente.

É fato que grande parte da população deixou claro não se sentir representada pelos partidos políticos atuais. As oposições dos manifestantes às bandeiras dos partidos políticos, mesmo os pequenos de esquerda, fizeram com que alguns especialistas entendessem que o paradigma do sistema político representativo está em crise. De qualquer forma, o que parece claro é a descrença de uma grande parcela da sociedade, sobretudo da classe média, nos partidos políticos existentes. Verifica-se uma ausência de projetos alternativos de governo e lideranças vindos da oposição, capazes de agradar uma grande parcela dessa população descontente. Enquanto o tom de conciliação existente entre os maiores partidos dá a impressão para muitos de que não existe mais diferença entre esquerda e direita no Brasil, a população se divide sobre as causas a serem defendidas. Questões de gênero e políticas de distribuição de renda dividem muito mais a população do que o governo, por exemplo.

A mídia e as elites tentam se aproveitar dessa divisão. Setores da esquerda acusam a direita e, sobretudo a mídia, de quererem “adotar” o movimento para deturpá-lo. Acho esse risco real. Nas redes sociais, é possível ver de tudo: gente que segue defendendo a redução do aumento na tarifa, gente que concentra sua força na oposição à Dilma, gente que pede o impeachment de Geraldo Alckmin (PSDB, governador do estado de São Paulo), entre variadas demandas mais específicas. Então, é uma onda de protestos, mas parece difícil agora compreender para onde isso vai nos levar e se nos levará para algum lugar diferente.

Mas fica claro que nem mesmo a imprensa mais conservadora conseguiu continuar deturpando a legitimidade do movimento. Essa imprensa, que até a semana passada chamava os manifestantes de “vândalos”, que atrapalhavam o trânsito e conduziam as cidades aos caos, teve de rever as suas posturas, agora clamando que o “gigante acordou”, e chegando mesmo à presunção de propor pautas. Alguns jornalistas chegaram inclusive a pedir desculpas e a Globo – talvez o maior gigante da comunicação na América do Sul - teve que se posicionar.

Assim, percebe-se um consenso sobre a importância do momento político, em um país onde a maior parte da população limitava a sua atuação política às urnas e ao facebook. É importante destacar que a ação política partidária e os movimentos sociais nunca deixaram de existir no Brasil, mas é inegável que após a chegada do PT ao governo, eles perderam visibilidade, sobretudo os independentes das grandes legendas políticas. A entrega da comissão de defesa aos direitos humanos em favor da eleição de um deputado ultraconservador como seu presidente (do Partido Socialista Cristão) demonstra como temas que antes eram de grande apreço ao PT e defendidos pelos movimentos sociais, passaram a ser desconsiderados pelo governo em favor da manutenção do sistema e contra as manifestações populares. Dessa forma, há um descontentamento contra os grandes partidos. A questão é: qual é a alternativa? Difícil chegar a um consenso. Cabe ao PT dar resposta a este descontentamento no presente momento. Muito embora os manifestantes tenham as mais variadas demandas, o movimento não deixa de ter a sua raiz na esquerda. Menos conciliação, mais direitos, é o que se pede nas ruas.

 

Teresa Cristina Schneider Marques é doutora em ciência política pela UFRGS. Atualmente é professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (PUCRS) - Brasil.